UMA REDE NO AR - Os fios invisíveis da opressão em Avalovara, de Osman Lins
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Leitura por rotas: são incursões no romance, mediadas pela
leitura dos pesquisadores e concretizadas no dispositivo hipertextual criado.
As rotas estruturam e tornam visíveis as articulações que se apresentam diluídas
em fragmentos textuais do romance. Para a determinação das rotas, consideramos
a possibilidade de navegação por rotas lexicais e unidades temáticas.
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Natividade ante a sua almofada de rendeira, quatro bilros nas mãos.
A pia, limpa, cheira a potassa e as panelas brilham sobre os azulejos das paredes. Natividade prefere fabricar nessa hora da tarde suas rendas, quando a quietude
do apartamento sucede-se às tarefas matinais e a posição do Sol torna a copa mais clara, favorecendo os seus olhos que começam a ver menos. Vai mudando
sobre o risco os alfinetes e cruza em torno deles as linhas, os bilros de madeira estalando um contra outro, sempre quatro a quatro, um par na mão esquerda e
um par na direita, abandona-os, toma outros dois pares entre muitos da almofada, trança-os. O rumor seco e breve das cabeças dos bilros, polidas pelo uso de
anos, ressoa alegremente no silêncio. Natividade acha-o parecido com o dos corrupios ao vento e com o barulho de um fio d'água entre seixos. Põe-se a cantar
em voz baixa. O menino em quem concentra toda a sua carga de amor -e que às vezes assusta-a com os seus olhos ao mesmo tempo rapaces e neutros -,
entreabre a porta, teso e sem elegância, duro, o uniforme cinza com vermelhos no quepe: "Mamãe está dormindo no sofá. Não cante." Ela interrompe a canção e
a porta se fecha sem ruído. Estalam menos rápidos os bilros.
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